26.4.06

 

Evocando António José Saraiva sobre o 25 de Abril

Mão inesperada trouxe-me à lembrança um artigo polémico de António José Saraiva sobre o 25 de Abril, na minha opinião, o texto mais contundente que alguém, insuspeito de simpatias pelo anterior regime, alguma vez escreveu sobre esta data memorável da nossa História recente.

Na altura em que o artigo veio a público, 26 de Janeiro de 1979, animado do atrevimento da juventude, discordei bastante dele, pelos termos demasiado crus que António José Saraiva empregava e por achar generalização exagerada na atribuição de culpas, designadamente aos militares.

Já conhecia, então, as qualidades intelectuais de AJS, reputado Professor Universitário, com larga obra publicada, mas não tinha a noção exacta da sua enorme categoria moral, que, depois, por diversas vezes, em variadas circunstâncias, pude, pessoalmente, comprovar, nomeadamente, quando AJS se dispôs a debater publicamente, no Centro Nacional de Cultura, o teor do artigo, que, compreensivelmente, levantara a ira dos militares do MFA, nele especialmente visados.

Num ambiente de grande exaltação e hostilidade para com a sua pessoa, com a presença de figuras gradas do MFA, nesse tempo ainda com bastante influência no poder em Portugal, AJS compareceu ao debate, repetiu e sustentou as críticas que havia formulado no artigo do Diário de Notícias.

A sua figura franzina, a sua fraca voz, quase de falsete, escondiam, no entanto, uma forte, indomável personalidade de intelectual probo e independente. Personalidade vincada que, mais tarde, haveria de levá-lo a rejeitar uma condecoração do Presidente da República, com base, se não erro, no argumento de que não reconhecia ao Estado competência para julgar comportamentos morais dos cidadãos.

Que eu saiba, foi das raríssimas pessoas, em Portugal, onde tantos se atropelam para abichar Comendas e Medalhas, sem que nada de especial tenham feito para as merecer, a assumir este gesto de invulgar desprendimento, bem demonstrativo da sua austera independência de espírito. Fazem-nos hoje imensa falta figuras públicas deste gabarito, capazes de oferecer aos seus concidadãos exemplos de elevada dimensão ética.

AJS era, na fase em que publicamente o conheci, um livre-pensador, diria mesmo, um filósofo, de alta credibilidade intelectual e moral. Desligado de forças políticas e partidárias, nos últimos anos de vida retirado do proscénio mediático, cada vez mais desconfiado do tecido partidário nacional, enfrentando animosidades e até desconsiderações, permaneceu sempre um interessado e lúcido observador da nossa realidade cultural, social e política, emitindo opiniões desassombradas, numa linguagem clara, sem lugar para ambiguidades.

Vale a pena ler tudo o que este notável Homem de Letras escreveu sobre Portugal e a Cultura Portuguesa; em particular, a colectânea de artigos de intervenção cívica reunida em livro editado pela Bertrand, em 1980, sob o título, carregado de simbolismo, «Os Filhos de Saturno», livro precioso, de inteligência e de coragem, a reclamar urgente reedição, para ser colectivamente lido e meditado, para nossa comum edificação e permanente memória.

Neste autor, hoje estranhamente pouco lembrado, apreciamos, com sumo regozijo, um pensamento próprio, profundamente original, expresso com mão de Mestre, num português claro, simples, fluente, de vocação didáctica, muito agradável de ler.

Em muitos dos artigos e crónicas da referida colectânea, podemos aquilatar a visão premonitória de AJS sobre a nossa realidade política, presentemente tão criticada, perigosamente desacreditada, desmotivando imensa gente de nela participar, arredando-a irremediavelmente, com prejuízo de todos, das tarefas urgentes de uma premente reabilitação nacional.

Quando se editam largos milhares de livros em Portugal, sobre os mais variados assuntos, alguns perfeitas inanidades, de quem mal sabe escrever, porque diabo ninguém se lembra de reeditar «Os Filhos de Saturno», ainda mais, tendo já sido editado pela Bertrand, uma grande editora nacional, que tem arrecadado pingues proveitos com os Códigos de Da Vinci e outras historietas fantasiosas apresentadas como versões históricas de grande rasgo inventivo ?

Prouvera que alguém tivesse a louvável iniciativa de reeditar este admirável conjunto de textos, cheios de doutrina e reflexão, de um dos mais insignes pensadores portugueses do século XX.

AV_Lisboa, 26-04-2006

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Transcrevo a seguir o célebre texto de António José Saraiva, publicado no Diário de Notícias de Lisboa, em 26 de Janeiro de 1979.

« O 25 DE ABRIL E A HISTÓRIA
António José Saraiva_Diário de Notícias_26-01-1979

Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.

Na perspectiva de então, havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime.Quanto à descolonização, havia trunfos para a realizar em boa ordem e com vantagem para ambas as partes : o Exército Português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro «Portugal e o Futuro», do general Spínola, que tivera a aceitação nacional, e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada, ordenada e honrosa.

Todavia, o acordo não se realizou, e retirada não houve, mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir.

Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas. Uma foi que o PCP, infiltrado no Exército, não estava interessado num acordo, nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato, que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar.

Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu. Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários».

E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização, num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do exército, para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige, em grau elevadíssimo, o moral da tropa. Neste caso, a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos, e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas aos que desorganizaram, conscientemente, a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que, nas circunstâncias do momento, eram puramente criminosas.

Isto quanto à descolonização, que, na realidade, não houve. O outro problema era o da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo, que, segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial : impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos.

Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito. O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial. Em qualquer caso, já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outros talvez piores os vieram desculpar.

Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total. Durante longos meses, esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente, as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril.

Havia, também, um malefício imputado ao antigo regímen, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar. Sobre isto, lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados.

Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regímen, como não se fez a descolonização. Uns homens substituiram outros, quando os mesmos não substituiram os mesmos; a um regímen monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista».

Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior, mais a vergonha da deserção.

E, com este começo, tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquios, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas confessos e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão, pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio «honesto» de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco.

Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encobre uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa história uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só, todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa história e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de nação. Está escrita e não pode ser arrancada do livro.

É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou. As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente.

Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de nação independente. »

Fim de transcrição -----------------------------------------------------------------------------

Comments:
VOu transcrever, com a licença devida e pedida.
 
Desconhecia este documento e, estranho que pareça, sempre pensei isso mesmodo 25 de Abril.Sem a arte de o descrever assim, vou imprimi-lo,para memória futuro dos meus filhos.Se algum dia tivermos a coragem, incluir-lo-emos nos livros escolares para explicar muita asneirada cometida 32 anos depois.
 
Os meus sinceros agradecimentos pela postagem deste texto do saudoso AJS, que eu desconhecia.Obviamente fiz "copy/paste". Muito, muito obrigado
David Oliveira
 
Viva!

Há uns anos atrás tentei encontrar este texto de António José Saraiva, que tive oportunidade de ler, por altura da publicação, mas de que depois perdi o rasto.

Não consegui e acabei por desistir, até que hoje, descobrindo este seu blog, o reencontrei.

Bom trabalho, esta oportuna transcrição, bom trabalho. Na hora certa.

Cumprimentos
 
Caro António Viriato,

Incluí este texto de AJS na antologia «Crónica Jornalística. Século XX», publicado pelo Círculo de Leitores, em 2004. Aí estão reunidas 100 crónicas de jornal de 100 cronistas portugueses.

É, de facto, um texto magnífico.

Saudações.
Fernando Venâncio
 
Não se percebe como no dia 25,faz uma Saudação ao 25 de Abril ,bonita aliás,e no dia seguinte, subscreve elogiosamente o texto de AJS
Quem poderá dizer-nos com segurança o que se teria pasado em Africa e em Prtugal se a meio da Revoluçao se seguisse o caminho sugerido por AJS?
Contudo, quero dizer-lhe que também eu defendia, e defendo, o caminho da descolonização apontado por AJS,com uma diferença---Devia ter sido desenvolvido pelo regime deposto
Os principais responsáveis da nóssa situação actual,não são os que nos têm governado (mal em muitos casos)nem os militares que deram o coiro no 25A, mas mas sim aqueles que durante largos lustros nos conduziram ao atoleiro.E esses não tiveram o nósso vóto, a nossa "abstenção" era obrigatória
Se nos tempos musculados de Salazar e Caetano,quando se podia, não se fez uma descolonização exemplar e honrosa ,vamos agora criticar aqueles que a tiveram de fazer no meio duma revolução?
Não pretendo con isto,menosprezar a figura de intlectual de AJS,apenas não concordo com as conclusões que tirou ,particularente no que se refere à descolonização
 
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